Portugal e Angola, colonizador e colonizado, produzem dois autores e duas obras de grande destaque tanto na área literária como no campo político. Duas produções engajadas no momento de luta de seus autores e de suas nações. “ A Geração da Utopia”, do angolano Pepetela e Jornada de África do português Manuel Alegre, marcam toda uma geração e fazem com que outras gerações, de povos distintos, mas ao mesmo tempo tão próximos, como nós brasileiros, na mesma época sob o domínio de uma ditadura militar violenta, possamos nos sentir tão perto dos ideais almejados pelos dois autores.
Não entraremos aqui na questão de gênero que as duas produções apresentam, como o caráter memorialista e autobiográfico, negado ironicamente pelo angolano Pepetela, a todos que o questionaram a respeito de sua identificação com o personagem Aníbal, e confirmado enfaticamente pelo português Manuel Alegre, como pude comprovar em uma entrevista feita por mim em 1998.
Na presente comunicação escolhi trabalhar os dois personagens que considero marcantes nas duas produções literárias: Aníbal de A Geração da Utopia e Sebastião de Jornada de África.
A construção destes dois personagens representará a transformação ideológica de dois países que viveram marcados pela imagem de um poder que se apoiava na dominação colonial e o outro que sob essa dominação foi se transformando e se construindo.
Sebastião, o alferes, viveu as cantadas glórias dos antepassados que formaram um império frágil e ao reviver o mítico rei, Sebastião, seu homônimo, procurará romper definitivamente com o messianismo retrógrado que caracterizou o conservadorismo português por tantos séculos.
Sebastião e seus companheiros não aceitam as guerras coloniais e têm a certeza que só a derrocada definitiva do salazarismo e de seus braços violentos representados por sua polícia política, a PIDE, (que agia tanto na metrópole como nas colônias) poderão trazer Portugal para a liberdade e para a consciência de si próprio. Um país que vive “... o medo de não agüentar, o medo de...”·
Violência invisível onipresente, um fantasma pairava sobre cada instante, a medo se desvivia...”
A grande utopia de Sebastião e seus companheiros de Angola (a nova Alcácer) é a transformação do Estado. A união da nação portuguesa em torno do combate à ditadura de Salazar e do domínio de inverdades em que vivem já há séculos. É a reconstrução da “comunidade imaginada” que construiu Portugal. Em um poema de sua autoria, Manuel Alegre nos diz:
...Alcácer Quibir és tu – Lisboa ajoelhada
nas armas que em teus braços vão partir.
Lisboa – Alcácer Quibir
.................................................................
Alcácer Quibir és tu Lisboa
E há uma rosa de sangue no branco areal.
Há um tempo parado no tempo que voa.
Porque um fantasma é rei de Portugal[1]
Para Sebastião, vestir a mais amarela de todas as fardas, embarcar em um vôo, no fatídico mês de junho, Junho é o mês do embarque[2]
Cumprir-se-á seu “Kairos” e já com o avião nas alturas ainda pode ver o Tejo, a Torre de Belém e mais um velho meneando três vezes a cabeça descontente...
Pede uma bebida, chama-se Bárbara, a hospedeira da TAP – Bárbara, a estrangeira.
Vai assim a afastar-se de sua terra, de suas raízes, do pai que em dias envelheceu anos. Agora, é o bafo quente e úmido da África que o fará pensar.
E Angola será seu lugar de exílio. Meditará sobre a vida, as lutas e até sobre a dura carga que carrega em seu nome. Tem a impressão de não reconhecer seu próprio nome.
A noção de “exílio” não se relaciona propriamente a um lugar, mas a uma posição a partir da qual alguém fala: há fronteiras mais significativas que nós atravessamos ao imaginarmos nossas terras natais do que as fronteiras que estão inscritas nos documentos e certidões. Para as figuras complexas que todos somos, a fala só se torna possível ao ocuparmos as margens.
O distanciamento traz a lucidez e só assim a clareza vem à mente.
“As nações são todas mistérios”, diz-nos Fernando Pessoa, mas a resposta de Camilo Pessanha vem a seguir caracterizando o distanciamento do lugar de exílio em que se encontram os conspiradores.
“Eu vi a luz em um país perdido”
E Sebastião se diz um sebastianista ao avesso. Se a glória portuguesa se deu da península Ibérica para a busca das colônias, o novo Sebastião deverá marcar a viagem de volta. O retorno para o território de origem. Assim poderá fazer cumprir a profecia e poderá construir um Portugal livre das repressões e mentiras, um Portugal que será a morada da justiça e liberdade.
Também com palavras se pode criar o irremediável, e aqui a literatura ajuda a desenvolve-lo. Sebastião se vê numa repetição da história. Causa-lhe estranheza se sentir entre aqueles combatentes que também têm em seus nomes o novo Alcácer. É o presente que se faz passado, a força de equilíbrio da natureza, o infinito tão conhecido nos símbolos tradicionais africanos, como a cobra de Ogum, que engole sua própria cauda para demonstrar o eterno repetir.
Apaixona-se por Angola, por Bárbara, a estrangeira. Amor louco, violento e urgente. Bárbara se vai e Sebastião fica. Parece que ambos sabem que o desaparecimento do alferes será a transformação necessária do estado português e nascimento de uma “comunidade imaginária” chamada Angola. Os amantes se uniram irremediavelmente e o angolano surgirá desse lugar ambíguo, conseqüência dessa união.
Precisamos falar, embora apenas superficialmente sobre o conceito de “nação” e sua construção. Trata-se de um dos conceitos mais controvertidos para se estudar e definir. Partimos aqui da concepção de Benedict Anderson que nos define nação como uma “comunidade imaginária” e dessa forma restrita, com fronteiras delimitadas e com componentes que se identificam através de elementos culturais, língua ou etnias. Dessa forma cada nação é limitada, pois se caracteriza por oposição ou estranhamento em relação à outra.
É concebida como imaginária, pois é o modelo estabelecido pelas elites como o ideal para seu povo.
A nação no conceito africano apresenta características muito próprias e embora sejam comunidades imaginadas por elites internacionais, nascidas em um lugar e optando por viver em outro e lutando a vida toda para voltar ou fugir de suas terras natais apresentarão peculiaridades da cultura tradicional que os colonizadores lutaram, mas não conseguiram eliminar.
Ao analisarmos “A Geração da Utopia” de Pepetela não podemos deixar de lado conceitos teóricos sobre a nação, pois só assim conseguiremos compreender e penetrar no universo angolano apresentado.
Diferentemente de Manuel Alegre, filho de uma comunidade européia, embora periférica no universo europeu. A utopia do autor, em sua obra de comprometimento político é a transformação do Estado através da mudança do regime que durante tantos anos se manteve no poder. Partindo-se do princípio de que utopia é o lugar que se pretende atingir. Na perspectiva que nos interessa a analisar, acreditamos ser fundamental que partamos do princípio de que os autores, em questão analisados e particularmente os dois personagens que enfocamos, têm fé em sua imaginação política e crêem que o melhor dos mundos não é apenas pensável, mas é também possível ou até certo e inelutável porque a ele somos levados pela força das coisas. Há uma disparidade grande de definições sobre o que venha a ser utopia e muitas bibliografias abrem um vasto campo de polêmicas sobre a questão. As soluções propostas de cada vez assumem um valor subjetivo, que gera confusões e desentendimentos sempre que sejam esquecidas as premissas sobre as quais os teóricos se apóiam. A etimologia é conhecida e é muito simples quando se supera a disputa filológica aberta pelo livro de Thomas Morus; ou seja, se a Utopia daquele neologismo deve entender-se como contração do grego ou (e como substitutiva do uso correto de um a privativo e não mais como contração de eu). Enfim, “lugar inexistente” ou “lugar feliz”.
Iremos nos apoiar em uma das mais consistentes definições de Utopia que nos foi deixada pelo teórico Karl Mannhein. Para ele, a mentalidade utópica pressupõe não só estar em contradição com a realidade presente, mas também romper os liames da ordem existente. Não se trata de fantasia ou mesmo de sonho para se sonhar acordado, mas é uma ideologia que se realiza na ação de grupos sociais. Transcende a situação histórica enquanto orienta a conduta para elementos que a realidade presente não contém, portanto, não é ideologia na medida em que consegue transformar a ordem existente numa forma mais de acordo com as próprias concepções. As utopias para Mannhein apresentam um caráter revolucionário. Não precisaríamos obrigatoriamente citar Mannhein para lançar tal gênero de polêmica, pois Lamartine já via nas Utopias a realidade de amanhã. Ou ainda a citação de Nicola Bernadieff que figura como epígrafe na obra Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Sebastião quer atuar, modificar e questiona a realidade de seu país, do Estado e do poder que o governa. Sabe que precisa participar ativamente para que o status quo seja transformado. Aníbal estuda, prepara-se para o dia em que a luta ganhar corpo e que possa aplicar suas convicções para construir a comunidade imaginada angolana. Para os dois não se trata de imaginação ou sonho e sim de uma ação possível e real.
Estamos em Portugal no início da década de 60, e aqui é o lugar de exílio de Aníbal e seus companheiros. Aqui em Lisboa e na “Casa dos Estudantes do Império” será a marca da posição de onde as fronteiras significativas são atravessadas.
A formação intelectual, a educação necessária aos jovens das colônias é realizada fora de suas terras, nas metrópoles, patrocinados pelas famílias, igrejas ou mesmo por bolsas de estudos concedidas pelo governo colonial.
A “comunidade imaginada” será pensada por essa elite e será construída em seus lugares de exílio. Serão indivíduos marcados pelo trânsito geográfico. E a maior parte não deverá seguir as posições radicais de um retorno à África tradicional, embora também encontremos correntes adeptas de tais posições. Aníbal valoriza o futuro e poderíamos aqui citar o pensamento do escritor Wole Soyinka como semelhante ao seu. Assim nos diz o autor:
Recusamos terminantemente a defender a exclusão de qualquer fonte de conhecimento, seja oriental, européia, africana, polinésia ou qualquer outra. Não é possível que se queira legislar que, uma vez que se adquira um conhecimento, esse conhecimento seja extirpado para sempre como se nunca tivesse existido.
Esse tipo de educação não impediu que fossem mantidos os vínculos com as tradições nativas e segundo Anthony Appiah, originário de Gana, os colonizadores superestimaram a extensão do controle exercido sobre os africanos.
A conseqüência do processo educacional realizado junto aos colonizadores tem como conseqüência o surgimento de um novo sujeito cultural africano, uma nova “personalidade” que se forma através de um diálogo entre dois eus e entre duas temporalidades: o presente africano-ocidental e um passado nativo que ainda se mantém vivo. Assim é Aníbal e é dessa forma que se aproxima tanto de Sebastião, em seus ideais, crenças e utopias.
O resultado de tal situação é a formação de seres “anfíbios”, segundo a concepção de Michael Ondaatfe, (alguém que assim se identificava por ter nascido no Sri Lanka, descendente de indianos, holandeses e ingleses) como bastardos internacionais – nascidos em um lugar e optando por viver em outro: lutando a vida toda para voltar ou para fugir de suas terras natais.
Aníbal é o exemplo desses indivíduos caracterizados acima. Intelectual brilhante, elogiado por acadêmicos e consciente de sua função na formação da nação angolana.
Coerente durante toda sua trajetória de vida percorre o caminho da luta, fugindo de Lisboa para Paris e de lá para a guerrilha angolana. Continuamos a acreditar que a literatura é um importante instrumento de construção da identidade nacional. Na África, a literatura nacional concentra-se nos anos 50 e 60 e como observa Appiah, o conteúdo contestador dessas obras era esperado pelo público africano e, sobretudo, ocidental, que considerava necessário que as novas literaturas deveriam ser anticolonialistas e nacionalistas. Entre essas obras está “A Geração da Utopia” de Pepetela e percorre toda a luta desde sua preparação até o desencanto ambígua vitória. Os intelectuais, como Aníbal (e até o próprio autor) participam de forma dramática do conflito entre o desejo de libertar-se do colonialismo político e cultural, participando da criação das novas nações e de uma nova literatura, e a constatação do fracasso dos novos governantes e dos modelos de Estado-Nação que foram construídos. Constata-se que os poderosos do presente ou do passado são descritos como igualmente incapazes de governar de forma justa.
Já com Sebastião não se chega a essa constatação, pois a batalha sangrenta contra os guerrilheiros de Angola proporcionará a repetição da história. É o infinito grego ou o equilíbrio tradicional africano que se comprova. Alcácer Quibir se repete e o novo Sebastião de Angola também desaparecerá nas brumas. Será o retorno, a reconstrução de um Portugal libertado de suas crenças mentirosas. É o 25 de Abril, a vitória e a esperança....
Aníbal, por sua vez, mesmo descrente, chamado por uns de louco e por outros de eterno comandante, não repudia o nacionalismo, mas os governantes e os modelos seguidos. Refugia-se em uma região inóspita, isola-se do poder e das benesses que só dele advém. Em sua solidão planta uma árvore e a ela fornece a água de sua sobrevivência. Acredita que nela mora o espírito de uma mulher a quem amou. Obsessivamente espera o dia de matar seus mitos e medos. A vida de Aníbal é a decepção com a África pós-independência, mas uma obra que começa por “Portanto” não pode chegar a um “Epílogo”.
Assim é a revolução. Assim são as utopias. Sempre algo mais a se fazer, a se construir...
ALEGRE,Manuel. Jornada de África. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1989.
ALEGRE, Manuel. O Canto e as Armas. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1989.
PEPETELA. A Geração da Utopia. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1989.
MANNHEIN, Karl. Ideologia e Utopia. São Paulo. Zahar, 1968.
APPIAH, Kwany Anthony. Na Casa de Meu Pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
ANDERSON, Benedict. Nação e Consciência Nacional. Ática, 1989.
HOBSBAWM, Eric J. Nações e Nacionalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
REIS, Eliana Lourenço de Lima. A Literatura de Wole Soyinka: Pós-Colonialismo,Identidade e Mestiçagem Cultural. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1999.